O Agente Secreto e o excesso da reafirmação

Entre 2012 e 2023, Kleber Mendonça Filho realizou 4 longas-metragens: O Som ao Redor (2012), Aquarius (2016), Bacurau (2019) e Retratos Fantasmas (2023). Todos eles compartilham algumas semelhanças entre si, desde a disposição em discutir política por um viés palatável até o interesse por filmar Recife de uma maneira próxima, ou então temas que certos filmes do diretor atingem como quando se fala de memória. O mais novo filme de Kleber, O Agente Secreto (2025), não foge disso. É possível notar um carinho do cineasta em reconstruir a Recife dos anos 1970, por meio de um aproveitamento de cores vibrantes pelas ruas da cidade, cenários que enfatizam as tradições e costumes locais, celebrações em festividades típicas e demais elementos que reafirmam essa valorização cultural. É realmente um trabalho de resgate da memória de uma época.

Dentre o misto de defeitos – que ao meu ver estão em maior número – e qualidades do cinema de Kleber, reparo que ele se dá melhor quando se envolve em sequências mais práticas e referentes a ação coreográfica – como algumas das bem filmadas cenas finais de matança em Bacurau – do que quando resolve abordar política. Já que para tratar de seus temas o diretor investe em uma lógica tautológica, reafirma excessivamente aquilo que quer propagar e não deixa o espectador pensar e nem a imagem fluir. Ou, então, em como sua abordagem se basta no maniqueismo, simplifica-se em situar os personagens em seus papéis e não consegue propor uma discussão para além deles. E isso ocorre desde seus primeiros filmes: em Som ao Redor, a milícia salvadora contra o dono do bairro; em Aquarius era a Sônia Braga boazinha contra os playboys malvados; em Bacurau, os moradores da comunidade contra os invasores norte-americanos – esse ao menos não se leva tão a sério quanto os outros.

O que penso é que esse tipo de perspectiva acaba traduzindo uma reafirmação dos próprios ideais sem espaço para a reflexão, um constante “nós somos do bem vs. o mal absoluto”, que, no fim, vira uma superficialização e torna impossível esboçar qualquer coisa relacionada ao sistema, algo que poderia verdadeiramente desafiar o que está fora do nosso olhar cotidiano. No caso de O Agente Secreto, nem houve tanta tentativa, tendo em vista que a ditadura é colocada como um pano de fundo e não existe um enquadramento histórico sobre o período – mas isso não é um problema por si só, nenhuma obra é obrigada a seguir caminhos pré-determinados. Só não creio que faça sentido essa alcunha de filme político que o longa vem sendo chamado, já que pouco se adentra de fato nisso, mesmo Kleber dando margem para essa interpretação. É mais como Marcelo, interpretado por Wagner Moura, lida com questões já decorrentes do regime em sua perspectiva individual.

Tautológico talvez seja a palavra precisa, já que é realmente uma repetição exaustiva, e o que mais evidencia esse problema em O Agente Secreto é a inserção das duas meninas no presente. Pois veja: enquanto o filme segue a trama de Armando/Marcelo, ele corta e quebra a linha temporal para pôr em cena personagens que estão ali apenas para servir como um artifício narrativo que explica detalhes que já estavam claros pelo andamento da narrativa. As conversas que o personagem de Moura tem com seus familiares já nos indicam que Marcelo não é seu nome real, então por que é preciso de uma cena inteira dessas meninas em um contexto no qual possuem as mesmas informações que o espectador conversando em um diálogo totalmente explícito? Isso acaba demonstrando uma de duas opções: 1. Que Kleber não confia na própria imagem, já que não acredita que deixou as informações claras através da trama de Armando; 2. Que duvida da inteligência do público, visto que as informações são reiteradas múltiplas vezes, mesmo que isso signifique quebrar a linha do tempo da diegese.

Indo para a narrativa da década de 70, ainda segue um ritmo bastante fragmentado mesmo sem contar as idas e vindas para o tempo presente. A história segue Armando, mas se envolve em tramas paralelas que apesar das 2 horas e 40 minutos de duração do filme parece não haver tempo para cada uma delas ter peso, resulta em várias ideias do texto jogadas e personagens que sobram. É uma condução sem foco, reúne todos os caminhos que almeja percorrer e preenche os vazios com algumas burocracias que sinalizam questões da ditadura – talvez para compensar ela sendo usada como background ou tentar acenos à política. A cena do surto da moça na delegacia pelo destino incerto da filha é um exemplo, porque, como segue a ótica do protagonista de Moura qualquer tensão ou interesse dramático fica no campo da sugestão, reduzida ao inferível. O filme é essas constantes pinceladas de alguma ideia que nunca se convergem em um corpo coeso.

E se o filme caminha por essas inconstâncias, quando decide parar e trabalhar com as relações entre os personagens é extremamente prejudicado por diálogos calculados que Kleber não consegue manejar naturalmente. Muitas vezes, aparenta como se eles possuíssem um efeito externo maior do que em como são estruturados dentro da narrativa. A verdade é que pensar o cinema no nosso tempo é pensar, também, suas relações com o mundo contemporâneo, então é difícil não nutrir uma sensação de que algumas cenas são direcionadas a um público específico que celebra tais momentos, quase se tornando uma espécie de fanservice. É plenamente possível elaborar uma cena visando um tipo de reação, o problema é quando é mal articulado e não funciona no todo. A sequência do jantar em que a personagem de Alice Carvalho dá um fecho no empresário é tão mal construída (o trecho começa na metade do jantar e quando o clímax surge em menos de 3 minutos é totalmente repentino) que a intensidade brusca da situação não transmite muita verdade, forçado dentro do tom relativo à natureza do filme, mas quando o assisti pela primeira vez na Mostra de SP de 2025 ficou claro para a que veio pela reação ovacionada do público do cinema, que gritavam e torciam pela cena.

Vi várias comparações com Brian de Palma, mas noto que as inspirações de seu estilo param na mera referência. Pegando o famoso momento do split diopter na delegacia como exemplo: até existe um esforço formal em criar uma dinâmica esteticamente interessante ao unir o protagonista e a ameaça no mesmo plano, porém a cena possui três segundos de duração e mal dá tempo de sentir seu impacto. Quando De Palma se utilizava desta técnica em seus filmes, era sempre no intuito de tornar a encenação mais densa, de expandir os pontos de vista ou até amplificar a tensão através dos elementos situados no espaço. Qual o valor da cena que não busca construir nada disso e rapidamente já corta para a próxima? E isso vai se repetir próximo ao final com a split screen icônica de filmes como Olhos de Serpente (1998), que acontece no final da ligação entre Vilmar e Augusto Borba onde a tela dividida aparece e some sem se justificar – tendo em vista que nos minutos anteriores a ligação se desenrolou normalmente pela montagem paralela –, sem estabelecer nada visualmente. Está ali apenas como um enfeite, um truque que não comunica nada; ao contrário do que De Palma fazia com o estilo de Hitchcock, por exemplo.

Olhos de Serpente (1998)

Dessas várias concepções que se comprometem ao tomar forma, ainda é possível perceber como algumas refletem lampejos positivos de intenções bem pensadas. É o caso de notar o modo em que as cenas sensuais são elaboradas e filmadas, pois por um lado é interessante que Kleber utilize do fator do sexo sem grandes ocultações, já que não é de hoje que existe um processo de castidade no cinema contemporâneo que somado à uma ideologia conservadora padroniza a rejeição à cenas sexuais explícitas. Romper com essa possível barreira no espectador é ótimo levando em conta a popularidade de Kleber no cenário e o público que seus filmes vão alcançar, mas, na prática, falta ímpeto para que de fato elas tenham força em tela e não caiam em uma artificialidade pouco favorável para o contexto. Por vezes dá a impressão de que Kleber se empenha muito em sequências específicas, porque mesmo depois de todas as questões que comentei anteriormente existem passagens muito bem filmadas que chegam a destoar do restante.

Tudo que envolve a parte do tiroteio carrega uma vitalidade, uma energia que entrega ritmo ao suspense que permanecia morno. Só é uma pena que se mantenha tão somente naqueles últimos momentos do filme antes de voltar para o tempo presente, que daí por diante decai bastante. A fotografia com ar comercial que eventualmente dava as caras praticamente assume a composição de cena e tenta caminhar a história para o anticlímax. No entanto, manter o assassinato de Armando off-screen é concluir seu arco por uma informação dada pelo texto, a rejeição de um registro visual de um ponto essencial do longa em prol de um relato (não exatamente por uma suposta morte sangrenta do personagem, mas para encerrar sua história através da imagem), além da escolha de Wagner Moura interpretar seu filho adulto – trazendo um rosto já familiarizado na trama para outro personagem. Tudo isso torna o desfecho estranho e pouco interessante cinematograficamente.

Recentemente aconteceu a cerimônia do Oscar e, com as quatro indicações de O Agente Secreto, algumas discussões voltaram à tona: nosso país precisa ou não de mais estatuetas? A verdade é que Oscar nada mais é que uma celebração da indústria estadunidense. Visibilidade ao nosso cinema sempre é interessante de alguma forma, mas existe uma hipervalorização do público geral na premiação em tratá-la como um validador máximo de qualidade (isso quando não se permeia nas redes sociais um discurso de que um filme deveria ser premiado unicamente por causa de seu tema). Essa reputação que se criou do Oscar consiste em um mito de que existem critérios objetivos adotados pelos membros da academia que decretam os mais qualificados do ano, mas o fato é que sempre foi sobre lobby e nunca sobre premiar os melhores. E assim como no ano passado com Ainda Estou Aqui (2024), acabou que O Agente Secreto foi bem recebido pelos olhares da indústria, boa parte do motivo talvez seja pela forma pouco desafiadora de contar sua estória. Conquistar o prêmio ou torcer para filme X pode ser divertido, mas, no final das contas, não vai trazer grandes mudanças para o lado de cá. O mais importante é que continuemos assistindo, criticando e desenvolvendo nosso pensamento acerca do cinema brasileiro.

Escrito por: Victor Gouvêa

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