É impossível desassociar o debate sobre cinema da internet. Todo o avanço das ideias acerca de teoria, linguagem, história ou qualquer outra área da arte cinematográfica ocorre majoritariamente na internet. Mesmo as revistas de cinema, responsáveis pelos debates críticos, agora estão localizadas na internet. No entanto, a grande parte das discussões é feita pelo público não especializado. A internet possibilita que qualquer um possa comentar as sandices que quiser e, dependendo do número de seguidores, ser escutado e defendido. Se antes a discussão pública era reservada aos especialistas, hoje ela pode ser pautada por qualquer um. E por mais estúpida que possa parecer a fala, não deve ser ignorada. O mal não some se fingirmos não o enxergar.
De todas as ideias que são comuns de serem veiculadas nessas discussões (entenda discussão como qualquer troca de ideias, sendo ela produtiva ou não, executada por conhecedores do tema ou ignorantes no assunto), uma das mais recorrentes, principalmente em épocas de premiações, é a do “filme socialmente importante”. A atribuição de valor ao filme se dá pelo tema, e exclusivamente por ele. Por exemplo, os comentários tecidos acerca de Barbie (2023), com aqueles discursos sobre “filme necessário” ou sobre um suposto dever da Academia em premiar o filme pela sua crítica social.
Isso pode ser uma derivação da ideia do público leigo de que um filme é a transposição de um roteiro através das imagens, e por isso a análise fílmica torna-se essencialmente uma análise textual. Mas gostaria de me atentar apenas à ideia apresentada anteriormente, pois ela sequer atribui qualidade ao filme por uma característica própria. Ela desenvolve uma métrica de qualidade que toma como base acontecimentos extra fílmicos, e que se não estiverem presentes diminuem o seu valor.
Tomamos como exemplo o texto Por uma Nova Cinefilia, de Girish Shambu (2020). Esse velho conhecido é uma síntese perfeita do que foi tratado até aqui. Isso fica claro quando observamos a seguinte frase: “Para a nova cinefilia, através da sua compreensão alargada de prazer e valor, os filmes que privilegiam vivências, subjetividades, experiências e universos de pessoas marginalizadas se tornam automaticamente valiosos” (Shambu, 2020, [s.p.]). Claro que Shambu não inventou esse modo de pensar, mas como o rei que vê no mensageiro o único representante da mensagem, o nome dele é que fica marcado na nossa imaginação.
A ideia de Shambu é de que o cinema se insere dentro de um contexto político global em que borbulham anseios pelos direitos e representações das minorias. O que ele não leva em conta é que o cinema, bem como toda a política global, está sujeito aos meios de produção dos países em que é produzido, sendo esse meio de produção, na maior parte dos filmes que temos acesso, o capitalismo. Algumas vezes o cinema vem do centro do capitalismo, outras da periferia dele e às vezes influenciado pela lógica formal da indústria. O fato é que o pensamento sobre cinema é indissociável do pensamento sobre a indústria cultural. É claro, então, que precisamos abordar o texto A indústria cultural: o iluminismo como mistificação de massas, de Adorno e Horkheimer (2002).
Resumindo bastante a ideia central dos frankfurtianos, sua tese é a de que, dentro da indústria cultural, os objetos culturais perdem sua finalidade artística e passam a serem meras mercadorias como quaisquer outras. A partir disso, muitos desdobramentos teóricos são expostos pelos dois autores, mas um deles em específico será necessário para o avanço de nossa discussão: a utilidade do produto cultural para os grandes monopólios.
O que Adorno e Horkheimer comentam é que esses produtos culturais, como os filmes, possuem a função da legitimação desses monopólios, a legitimação do capitalismo. E isso passa também pelas representações das minorias dentro desses filmes. Os filmes industriais com protagonistas negros, femininas ou queer, não passam de legitimações do papel desses grupos na sociedade capitalista ou de cínicas mea culpa por parte dos monopólios industriais. Portanto, nem mesmo a representatividade que tanto é desejada é livre dos ideais daqueles que são responsáveis pelas posições sociais daquelas minorias.
Poderia-se argumentar, então, que as ideias de valorização do filme por seu conteúdo ainda é válida para aqueles filmes não industriais. No entanto, cairemos na mesma premissa da indústria cultural: transformar o filme em uma ferramenta com utilidade e esquecer de seu lado artístico. Na busca pela disrupção com as amarras do capital, acabamos replicando sua mesma prática.
Isso não significa dizer que o conteúdo de um filme não possui valor algum. Mas só possui valor enquanto motivador da forma. No texto Por um cinema impuro — defesa da adaptação, de André Bazin (2018), o autor faz a defesa da adaptação de romances no cinema, dizendo que esses grandes textos impulsionam a forma quando o diretor, para tentar obter a semelhança com o espírito da obra original, deve imaginar meios de ultrapassar as diferenças estéticas entre literatura e cinema. O que se conclui, portanto, é que o valor do conteúdo está em impulsionar a forma do cinema, afinal, o que se vê na tela são imagens, e não palavras.
O questionamento da configuração social através do cinema é válido, mas quando seu texto capacita a linguagem a avançar, e não se manter estática. Se continuarmos a replicar a forma que a indústria usa, independentemente do texto, não estaremos verdadeiramente confrontando os problemas, mas os tornando tão “limpos” quanto qualquer outro tema banalizado pelos monopólios. A crítica verdadeiramente disruptiva questiona as bases da cultura, não a endossa, mesmo que pela negação.
Não se submeta ao olhar superficial sobre a realidade. Se está verdadeiramente preocupado com questões sociais, questione até aqueles que parecem estar do seu lado.
Notas
- Este texto não é uma defesa de qualquer ideia “anti-woke” ou outra asneira parecida. A própria redução da qualidade do filme a suas representações ou a falta delas parte exatamente da mesma premissa que a ideia anteriormente apresentada. O texto foca em apenas um lado do espectro simplesmente porque o outro lado não estaria disposto a compreender a argumentação desenvolvida.
- Se quiser um exemplo mais recente ainda, basta ler os comentários de qualquer publicação no twitter sobre a vitória de Valor Sentimental no Oscar de 2026. O que não faltam são comentários sobre a injustiça de um filme sobre “brancos descobrindo sentimentos” ganhar de um filme que retrata “a violência da ditadura na américa latina”.
- Muitas outras argumentações e temas podem se originar e originam o tema aqui tratado, bem como poderiam ser citadas durante o texto. O motivo de não se apresentarem é que julgo não ter conhecimento o suficiente ainda para desenvolver um texto que valha a pena ser lido.
- Mais informações sobre a crítica questionadora em Crítica Cultural e Sociedade, de Adorno.
Escrito por: Augusto Guimarães
Referências
ADORNO, Theodor W; HORKHEIMER, Max. A indústria cultural: o iluminismo como mistificação de massas. In: LIMA, Luiz Costa (org.). Teoria da cultura de massa. São Paulo: Paz e Terra, 2002. p. 169–214.
BAZIN, André. Por um cinema impuro — defesa da adaptação. In: BAZIN, André (Org.). O que é o cinema? Tradução de Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Ubu Editora, 2018. p. 122-147.
SHAMBU, Girish. Por uma nova cinefilia. Tradução de Ingá Maria e Rodrigo de Abreu Pinto. In: REVISTA CINÉTICA: Cinema e Crítica, São Paulo, 28 abr. 2020. Disponível em: https://revistacinetica.com.br/nova/traducao-de-por-uma-nova-cinefilia-girish-shambu/. Acesso em: 25/03/2026.

