A Contradição da Imitação em Close-up: O Belo e o Ridículo em Embate

É possível imitar o que se é? Em Close-up (1990), Kiarostami, inspirado em fatos reais, faz da idealização distante de um homem pobre e apaixonado por cinema a trama de uma história que, vista sob a concepção de Aristóteles, em A Poética, constrói um limbo entre a tragédia e a comédia. Sabzian, um homem humilde, em meio a circunstâncias que favorecem a frutificação de sua obsessão, passa-se por um diretor de cinema ao encontrar-se com a matriarca de uma família em um ônibus. A senhora lhe faz perguntas e, de súbito, ele assume a identidade do cineasta Makhmalbaf, ao passo que, convencida de ter conhecido o diretor, a mulher o leva ao seio da família, e o homem age como o cineasta até ser preso por fraude.

No entanto, a fraude se encontra em um lugar distante da leitura que a obra suscita: não se trata unicamente de uma fraude, mas, em primeiro lugar, de uma imitação do que se é. O personagem não tira proveitos significativos da privilegiada identidade que usurpa, mas se vale de sua fantasiosa posição para suprir um desejo que constrói sua identidade. O desejo materialmente impossível de tornar-se e, sobretudo, de ser, quando não se pode. Sabzian, sujeito marginalizado, encontra no cinema um prazer que sua realidade é incapaz de provocar, mas não lhe basta estudar cinema e ver cinema; é preciso criar cinema, ainda que se valendo da imitação e da identidade de outro. Mas, sendo um outro, ele é mais ele mesmo do que nunca. É como se a identidade de Makhmalbaf fosse sua por direito, mas há a contradição entre as naturezas do imitador e do imitado.

Em A Poética, Aristóteles segrega as imitações e os gêneros aos quais pertencem: a imitação do grotesco, do ridículo, do indesejado é própria da comédia; já a imitação do nobre e dos homens melhores que nós pertence à tragédia. A contradição da imitação em Close-up está, entretanto, no choque da relação entre imitado (cineasta) e imitador (Sabzian).

Tratando-se da fraude/imitação de um diretor de cinema, há comicidade na ingenuidade de Sabzian e na vulnerabilidade à qual expõe sua liberdade em troca de experimentar ser o que deseja. Na cena dos últimos momentos de Sabzian como Makhmalbaf, Kiarostami evidencia, com a câmera, a iminência do fim da farsa. No plano, Sabzian ocupa o centro, confortável, mas inseguro; o patriarca lhe faz perguntas suspeitas, e há um espaço vazio que ocupa grande parte da tela, pelo qual passarão os policiais. De diretor de cinema a criminoso, o que vemos é um homem tolo (em meio à opulência do cenário). A tensão que o filme provoca nesse momento é catártica e só deixa espaço para o aspecto ridículo do personagem.

Entretanto, o protagonista, ao decorrer do filme, mostra-se profundamente digno, sensível às artes e elevado moralmente. A erudição e a sensibilidade que ele mostra possuir desconstrói (ou transforma) sua ingenuidade. Nesse instante, ele passa a ser digno de imitar, uma vez que se aproxima da característica primordial do imitado: o sublime.

Em Close-up, imitar é a única maneira de ser. Portanto, a medida do ridículo está no ato e nas implicações da própria impossibilidade de não ser um outro, mas de, tendo o outro como instrumento, reafirmar a si mesmo. O personagem mimetiza um sonho de vida que sua própria condição humana impede. O ingênuo Sabzian, mesmo como Makhmalbaf, é a imitação mais nobre de si mesmo.

Escrito por: Kamyla Ribeiro Tavares

Referências

ARISTÓTELES. Poética. Tradução Eudoro de Sousa. 2. ed. Imprensa Nacional Casa da Moeda. 1990. Série Universitária. Clássicos de Filosofia.