Há uma cena em Cielo Negro (1951), segundo filme da carreira de Mur Oti, em que são premeditadas todas as desgraças que ocorreriam na vida da personagem: refiro-me justamente à cena que move tudo, em que Emilia vai finalmente ao parque com o vestido da loja, quando a chuva vem e ela entra em completo pânico. O que me chamou atenção logo de cara é como Manuel, de forma muito singela, consegue pôr em quadro a consequência da educação privativa da personagem, que sempre viveu para cuidar da mãe e não soube reagir quando algo tão simples como a precipitação do ciclo hidrológico aconteceu. Genuinamente, é difícil ver a tamanha brutalidade que é posta em tela após, ainda mais em um filme no qual não é despejada uma única gota de sangue. Das coisas mais angustiantes que já assisti.

De qualquer forma, nada em Cielo Negro (1951) ou em qualquer filme (qualquer experiência, na verdade) teria a capacidade de me preparar para o que viria neste, que foi seu último filme. Tendo em vista sua repercussão internacional, pouquíssimos são os sortudos que têm noção do quão perfeitamente Mur Oti adentra no conto de uma família, ou melhor, da vida e história de um rapaz.
Mais introspectiva impossível é a câmera de Manuel, que passa por diversos momentos da vida de Juan. Morir… dormir… tal vez soñar (1976) é um filme sobre o passado e como o protagonista está preso a ele. Fica claro vendo o quão escassas são as informações do presente; as memórias virem fora de ordem assentam bem para dar essa sensação estagnada de dias felizes da vida de Juan. Estivemos com ele em seu primeiro amor, em seus questionamentos da vida quando criança, acompanhamos doenças de familiares, sua primeira experiência sexual e sua noite de núpcias. Estas duas últimas, querendo ou não, podem ser ligadas ao claro fetiche de Juan pelas imagens, pelas memórias em sua casa e do que um dia aquele espaço narrativo já foi. Tal como Emilia, de Cielo Negro (1951), Juan é extremamente passivo ao que lhe acontece. Tudo se alinha à sensação de estarmos invadindo seu corpo e alma, tendo acesso àquelas memórias tão íntimas.
Assim como na calada da morte, tudo se elucida quando, apostando no quão poderosas são suas imagens, Mur Oti deixa claro o estado moribundo daquele homem que achava aquelas memórias perdidas em sua consciência. Tudo morre dogmaticamente e é invadido o tempo todo, mas, sobremaneira, é carregado de vida. Sinto-me obrigado a me acomodar aqui e dizer que toda a encenação de Mur Oti é uma enorme lição sobre o grande prazer que é a chance de viver. Não poderia finalizar mais significativamente sua carreira, que sempre tocou no íntimo das relações por meio do melodrama e explorou o classicismo da imagem.

Escrito por: Gustavo Nogueira.


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