Em uma fala recente no Festival Internacional de Cinema de Berlim, Wim Wenders, como presidente do júri, afirmou que o cinema precisa ficar fora da política, que, ao fazer filmes dedicados a ela, entraríamos no seu campo, e que caberia a nós fazer “o trabalho das pessoas”, não o dos políticos.
Mas esse fora não existe. O cinema nunca ocupou uma exterioridade do mundo. Ele é uma forma histórica, situada dentro de uma indústria, desde seus primórdios, que organiza o visível e, por tal, o pensável.
Vivemos na época da saturação por imagens que descendem diretamente da gramática cinematográfica. A migração do conteúdo audiovisual para as redes sociais, para o cotidiano banalizado, modula o mundo. Nosso olhar é completamente automatizado, habituamo-nos às imagens, que passam por nós sem fricção. O abjeto vira banal.
Ao propor que o cinema deve ser o “oposto da política”, Wenders nos parece querer uma espécie de refúgio, como se a arte pudesse operar num espaço de pureza ética. Em Carta para Jane (1972), fotofilme de Godard, desmonta-se uma única fotografia de Jane Fonda para mostrar a ideologia que a sustenta. É um exercício de desaceleração do olhar, parecido com um processo central para a área da antropologia: desnaturalizar o familiar e naturalizar o exótico.
Pensar criticamente o cinema, tarefa primordial para nós, é pensar nesse sentido, tensionando a forma e o mundo até que a imagem volte a ser problema, ou uma questão, e não apenas consumo.
Se as imagens estruturam nossa experiência do real, então disputar essas imagens é disputar o próprio real. Não no sentido de transformar o cinema em instrumento partidário e sim para reconhecer sua implicação constitutiva naquilo que chamamos de comum.
Esta revista nasce desse desacordo. Não como ataque pessoal ao pensamento de Wenders, mas no sentido de ser uma fricção necessária a esse processo, que ultrapassa a opinião individual de um diretor.
Escrito por: Pedro Oliveira, Thiago Campos, Ryan Cavalcante, Luiz Gustavo.

